quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Soft Power


Nos últimos dias da expedição científica que participei no noroeste do Mato Grosso (18 dez 2010) estávamos na Colocação Chico Preto no Rio Roosevelt. Colocação é tipo um endereço para as populações ribeirinhas. Chico Preto é um caboclo alegre, dinâmico, ligadíssimo no trabalho, na família e no em torno.
Ali, na sua colocação, num dia chuvoso, fomos ver suas ruas de seringa, seu pequeno galpão com 1.300 kg de borracha já pronta para entrega, sua horta, casa de farinha. Depois dele terminar de fazer dois remos e secar a farinha no forno fomos para dentro de sua casa conversar.

Um dos projetos em andamento na região é a revitalização da coleta do látex (borracha). Os ribeirinhos apoiados por alguns órgãos municipais e estaduais foram incentivados a retomar o trabalho com a borracha. Vocês devem se lembrar que a borracha foi um marco econômico na Amazônia (1879/1912). Por um contrabando de sementes de seringueira feito pelos ingleses elas foram levadas e plantadas na Malásia em cultivo menos difícil de coletar. O preço da borracha brasileira despencou. Na segunda Guerra Mundial teve um leve retorno. Não vingou.
A Amazônia tem uma nova vocação. Mas como tudo no mundo muda agora a demanda é por uma borracha melhor para fazer camisinhas, pneus de avião e dos bólidos da fórmula 1. Neste nova fase entra o Chico Preto que coletou mais borracha que todos os seus vizinhos do Rio Roosevelt. Perto do Natal de 2010 tinha o equivalente a R$ 4.000,00 para entregar à Michelin. Na teia que envolve órgãos governamentais, produtores e a Michelin alguma coisa rompeu.
A mulher do Chico Preto disse que naquele dia eles tinham duas latas de óleo, duas barras de sabão, 60 quilos de farinha que acabarram de torrar e mais da metade das crianças sem sandálias havaianas por falta de dinheiro um pouco de arroz e feijão. (Peixe e caça, proteinas, eles conseguem na mata e no rio). Chico Preto estava revoltado com esta situação dizendo que foi enganado e que a Michelin era mentirosa porque prometeu comprar sua borracha que estava ali estocada e ele sem dinheiro para o Natal.
Perguntei se queria que eu enviasse um e-mail para o presidente da Michelin relatando o ocorrido. Ele disse: Fala que a Michelin é mentirosa!
Achei o e-mail da assessoria de imprensa da Michelin e enviei um texto abrangente sobre o imbróglio reproduzindo a fala do Chico Preto. Alguns dias depois recebi retorno da SEMA-MT (Secretaria do Meio Ambiente do Mato Grosso) dizendo que meu e-mail tinha botado lenha na fogueira e uma grande movimentação estava ocorrendo para resolver o problema e finalizava dizendo no dia 24 de janeiro de 2011 eles voltariam à Colocação do Chico Preto para resolver a questão.
Final Feliz.
Soft Power!

Um comentário:

Senador disse...

Juvenalis Eustaquius, além de insubordinado, anárquico e libertino, é também justiceiro!!! A Chico Preto o que é de Chico Preto!!!!

Abraço do

Senador